14 de novembro de 2005

Pra quem não conseguiu ler sobre as fogueiras

Ação é descentralizada e sem líderes claros
DO ENVIADO A PARIS
A revolta que assusta a França tem códigos de articulação próprios de um conflito cuja marcas mais intrigantes são a descentralização do poder rebelde e a total ausência de líderes.Em dois dias de conversas com jovens de três cidades da periferia de Paris, a Folha confirmou algo de que a polícia e o governo já haviam se queixado: os incendiários franceses são senhores de seus atos, não seguem nenhuma entidade nem nenhum guia.Um adolescente de origem tunisiana de Clichy-sous-Bois, primeira localidade a explodir, relatou sua lógica, que dificulta o trabalho da polícia de identificar os autores das ações."Somos solidários uns aos outros. Quando decidimos fazer alguma coisa", explica, "sempre fazemos todos juntos. Assim é bem mais fácil, porque, quando todo mundo faz, ninguém faz. Não há um só culpado."No grupo à sua volta, diante da pergunta sobre qual o inspirador da revolta, ninguém fala nada. "Não tem modelo, não tem ninguém em que a gente se espelhe."Nesse contexto, a organização depende de improviso, criatividade e tecnologia. A maioria dos encontros se dá à base do boca-a-boca, em encontros que são marcados nos pátios das "cités", os conjuntos habitacionais que são o nascedouro dos distúrbios.Mensagens de texto por telefones celulares também têm sido usadas à exaustão. Ontem, a polícia anunciou ter identificado vários blogs em que jovens combinavam reuniões para organizar arruaças e incitavam a violência.Há ainda as rádios piratas. Quem conta é a alemã Ann Kathrin Goebel, que trabalha como recepcionista em Paris."Anteontem eu voltava para casa [num subúrbio ao norte da capital] e, sintonizando o rádio, topei com uma emissora clandestina, que convocava os jovens a comprarem armas e combaterem a polícia", relatou à Folha.