29 de dezembro de 2005

Rumo a caderininhos 2006

Os projetos em longo prazo que disse outro dia podiam ser, por exemplo, conseguir fazer da vida um texto.
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Enquanto isso, fico na vida por itens, sem apresentação, desenvolvimento, conclusão, alguma narração e quase nenhuma carta.
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Pouca poesia, a não ser aquela que já vem pronta nos livros ou na rua, que nem aquele homem que vi há pouco, carregando desajeitado e solene um ramo de rosas brancas e vermelhas embrulhadas em plástico, atravessando a rua murmurando sozinho, provavelmente as palavras que diria ao entregar o presente.
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Também vejo na rua por aqui crianças andando de bicicleta junto com os carros, jogando futebol aos domingos, ou um velho andando bem pra lá do meio fio, com os passos calmos do interior (dele mesmo). Eu vejo pouco medo de carros em alguns.
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Comecei hoje meu caderno do ano que vem. O ano começou hoje, sem festa. Com cerveja sozinha com este amigo computador de tantas horas.
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Foi hoje que larguei meu emprego em busca de uma vida nova. Como diz o filme que chorei assistindo, o último do caderno passado ou o primeiro deste ano, estou abrindo os trilhos, mesmo que ainda não haja trem.
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Este emprego, com carteira assinada, me dava muita informação e pouco conhecimento, quase nenhuma amizade, lesão nos tendões, nenhuma militância, pouco crédito para meu cérebro. Larguei em busca da escola pública.
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Um pouco antes da carta de demissão, documento inédito nos meus escritos, saiu a nomeação no diário oficial. Não estou desempregada, portanto. Ano que vêm no mínimo 210 crianças de 11 a 14 anos me esperam. Espero que eles me esperem, porque eu espero eles!
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Este ano tem mesmo a lista de promessas de ano novo. É infindável, mas serve mais pra eu não esquecer quem eu sou, o que quero mesmo, o que gosto tanto, o que eu não agüento mais.
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E ainda se a vida continuar em itens, ao invés de números, estrelas!

27 de dezembro de 2005

Homenagem à minha 'essência mineral'

que hoje faz aniversário....

“Segundo ele, o corpo era feito de tempo. Acabado o tempo que nos é devido, termina também o corpo. Depois de tudo, sobra o quê? Os ossos. O não-tempo, nossa mineral essência. Se de alguma coisa temos que tratar bem é do esqueleto, nossa tímida e oculta eternidade”

do Mia Couto

22 de dezembro de 2005

Promessas de Ano Novo

Apesar do ano novo ser a data mais importante pra mim, somente depois dos meus primeiro e segundo aniversários, eu nunca fiz promessas de ano novo, nunca. E nem senti vontade de fazer porque acabo prometendo promessas todo domingo, ou toda sexta-feira, algumas eu cumpro, outras eu esqueço, nada por escrito, e sem testemunhas.

Este ano escreverei uma carta, em duas vias. Uma para Iemanjá, a ser depositada no mar em seu devido momento. A outra será guardada e lida só no próximo momento de fazer promessas.

Vamos ver se assim consigo dar conta de alguma delas, talvez a mais importante: realizar planos em longo prazo.

19 de dezembro de 2005

Conversando com o rádio nº278

Não quero mais me desmentir
Eu não vou mais te procurar
(clique na primeira musiquinha, dos mombojos)

13 de dezembro de 2005

A resistência tombou (ou temporariamente fora do ar)


Já é sabido que para alguns este órgão aí abaixo funciona como uma esponja em momentos de crise. Sim, tenho amigdalite toda vez que meu desânimo entra em estado crítico.

Dizem os especialistas que as amigdalas (apontadas no desenho aí em cima) são a porta de entrada (fechada ou aberta) para as infecções.

“As amígdalas seriam uma primeira barreira de nosso organismo contra agressões do sistema ambiente.”
(especialistas)

Por falta de uma tive duas amigalites na seqüência, a primeira mal curada porque os antibichóticos são droguinhas para a maioria das bactérias mutantes de hoje. A segunda, curada com injeções. Que bom que eu perdi o medo de agulhas faz tempo.

As “agressões do sistema ambiente” provavelmente referem-se ao fato de que ainda não consegui decidir os próximos passos para um futuro que é quase amanhã. Bem como não consegui decidir um passado quase ontem que entalou na minha aorta.

É mentira, estou decidida a não. Mas, enquanto o futuro não chega, as vezes as manhãs e as tardes ficam vazias e as noites insuportáveis.

8 de dezembro de 2005

sem-título

Se eu tivesse um filho, estaria pensando no que fazer do natal da criança.
A primeira questão diz respeito a figura do Papai Noel, porque sim é bom ter fantasias, cultivar a imaginação e o mágico. Mas existem tantas outras fantasias mais legais, especialmente aquelas ligadas a outras formas de ver o mundo e não ligadas ao consumo.
Da mesma forma o natal em família é uma ocasião difícil de romper. Já sugeri outras formas de festas que não incluíssem esta pretensa comemoração do nascimento de um menino há dois mil anos atrás...que apesar da família católica, pouco ou nada tem a ver comigo e minha vida.
Além do mais as comidas de Natal, que nada tem a ver com nossas comidas do dia-a-dia e são quase todas importadas...
Já tentei, mas é difícil entre os meus uma comemoração de natal regada a vatapá, numa praia, sem presentes (nem pras crianças) e pensando em outras coisas que não sejam nossos mortos que não estão presentes naquele momento. É claro, pode ser toda a família junta, que até que é legal!
E o Natal é quase insubversível! Você já se imaginou querendo criar seu filho de outro jeito e dizendo: _ Tia, não vou a festa! Ou _ Não, filho, presentes não são importantes!, em frente à árvore cheia e às outras crianças presenteadas.

Pensando nisso melembrei das inúmeras crianças sem papai-noel. Como aquele menino que trabalha ao lado da exibição pirotécnica do Banco de Boston, na Avenida Paulista. Um teatro de bonecos não muito animados, com vozes daqueles disquinhos de história infantil. Todas as vezes que passei na frente vi pessoas hipnotizadas pela parafernália, que inclui até um cuspidor de neve de mentira, que o vento leva até o menino que está ali do lado trampando e deve saber, há muito tempo, que o papai noel dele é ele mesmo.

5 de dezembro de 2005

Eu sabia que era crise de abstinência!

Dos que vieram antes de mim!

Faz tempão que eu tenho um avô que não conheço. Aliás, conheci pequena, mas logo meus avós se divorciaram (mesmo, nos anos 70, devem ter sido os pioneiros, de papel e tudo), brigaram e minha avó tomou posse da família. Ele, por seu lado, criou outra. Há dez anos atrás o vi, beijei e abracei no enterro do meu pai, situação muito triste para conhecer um avô já velho.
Mas está fazendo um mês que estou sentindo muita necessidade de conhece-lo. Diz a lenda que era um avô bonachão, boêmio, bom-coração, poeta, jogador de futebol corintiano roxo das antigas várzeas do Tietê (tem foto disso, lindo!). Era também um homem lindo, de olhos verdes rasgados, moreno índio, espírito de italiano.
Daí neste final de semana recebi um telefonema de uma tia avisando: o homem está fazendo 80 anos. Parece que com alguns problemas de saúde, circulação, varizes, risco de amputação. Também, fuma até hoje. Mas está vivíssimo e bem.
Que alívio: é muito bom se encontrar naqueles seus que vieram antes de você.

Resolvi telefonar.
_Oi, aqui é sua neta, eu soube que o senhor está fazendo 80 anos?!
_ Que emoção, que felicidade, filha, deusteabençoe, eu lembro de você no meu colo querendo pegar o abajur (?).
(Sim, avô, faz quase trinta anos, mas eu estou aqui e queria te agradecer por ter vivido tanto pra esperar por isso.)