8 de novembro de 2006

O Eterno Frio da Primavera

“Um livro, sempre uma tábua de salvação, poderá permitir sonhar que muitos lugares podem ser o Lugar”

Abandonei, depois da página final, a mesa do bar. A última olhada me diz: um cinzeiro com três bitucas, uma garrafa vazia, um resto de prato e uma lágrima contida.
Tudo o em volta me dizia o contrário, pessoas com aventais brancos riem alto mas eu não ouço. Estou lá naquela ilha do Chile, na qual estive há dez anos. Chiloé. Lá comprei uma boneca, chamada pelas artesãs da ilha de bruja. Una bruja de Chiloé. Llevátela! Nunca conversei com ela, não aos dezenove anos. Talvez eu devesse.
Lá neste lugar que, pelo livro, é o sul do Sul, tudo era lã de carneiro cheirando a curral e cerveja gelada tirada da prateleira. O frio, o maior que já suportei na vida. Mas não tão cruel quanto este insuportável frio de primavera que me ronda há anos, que parece ancestral.
O livro que me apego há 48 horas conta sobre o amor. É um romance sim, que tenta agarrar todas as mil faces do amor neste século que o matou. Lembrei-me de todas as vezes que um romance me salvou, desde talvez os 15 anos. Sempre um refúgio, obsessivo, mas refúgio.
A personagem, ironia, uma historiadora que pesquisa um povo da patagônia. Os yaganes, que tem um mito que conta a mais velha história de todas, aquela que toda mulher deve ou deveria saber contar. Me parece que para esse povo as mulheres tinham o maior poder e que nas noites pintavam em seus corpos símbolos que as transformavam em espíritos, e que assim assustavam os homens e os mantinham sob o seu domínio. Uma noite, um homem flagrou as mulheres se lavando no rio, retirando as inscrições. Uma revolta foi armada e todas as mulheres foram mortas, a não ser as crianças. Assim, os homens dominaram a arte de inscrever no corpo e dominar as mulheres. Com o medo.
Uma grande parte do livro trata do frio, fato que me é comum.E não desse frio da Terra do Fogo. Paradoxo, mas sim pode ser o frio do fogo. Frio que atingiu a personagem quando ela abandonou a casa de seus pais, e que nunca passou até ela chegar lá, nesse sul.
Me fez lembrar de um filme, talvez a cena que eu mais goste de todas, de uma mulher sofrendo por amor que começa a tecer. (Uma dose da sempre Penélope). E por anos e fios, a esperar, tece um cobertor tão grande que forma uma gigantesca cauda de quadrados coloridos, que a embala quando ela vai embora. Este gelo eterno só é resolvido quando todos os palitos de fósforo, metáfora da alma, são acesos ao mesmo tempo.
Pensei ontem à noite, no meio do livro, que não queria nada, só vagar por aí pra ver se me encontro. No Sul, sempre. Levaria a coberta que minha mãe teceu pra mim, por via das dúvidas.
Só para encontrar este Lugar onde não haja mais frio.

6 de novembro de 2006

Sabedoria do Velho Barba ou Sobre a atualidade do 18 brumário

Pra retomar minha condição de historiadora...
Para negar minhas tendências pós-modernistas...
Para me render às análises de uma amiga com quem amo teimar...
Para não esquecer o alerta de outra amiga, que sabiamente me recordou a farsa...
E pra lembrar que: antes a tragédia.