28 de junho de 2006

Quando nos descobrimos hermanos

Na terça-feira, dia de jogo, havia somente oito alunos na quinta série. Três deles bolivianos.
Nesta sala eu faço meu trabalho de base Brasil-Bolívia. Eles já sabem dos fantásticos Incas e escutam quase todos os dias sobre a discriminação e racismo. Era a chance dos colegas ensinarem o que sabiam para o resto da sala.

Ta bom, gente! Vamos brincar de dicionário português-espanhol.

Como se escreve casa em português? Casa. E em espanhol? Casa.
Tão vendo, moramos no mesmo lugar.
*
Na saída da escola, descobri que um deles tem uma Bíblia em aymara que o avô esqueceu quando voltou pra Bolívia. “Ele deve é ter deixado pra vocês de propósito!”, falei. “Traga pra eu ver, por favor. E descobre alguém que possa me ensinar a falar”.

O outro aluno diz que a mãe dele fala aymara, mas só de vez em quando. Só “quando vem um homem lá em casa, ler o futuro”. Eu digo, “Jura?”. “É, ele é um feiticeiro. Espalha as folhinhas (de coca? é) e lê o futuro.”

24 de junho de 2006

Anhangá, São Jorge e todas as gentes

Quase dava pra dizer que todo mundo do centro estava ali. Uma multidão de gentes.
Office-boys, manicures, vendedores, enfermeiras, camelôs, contínuos, escriturários, corretores de seguros, agiotas, compradores de ouro, garis, aposentados, funcionários públicos, crianças, bebês, meninos vendedores do farol, moradores de rua. Sem esquecer das meninas do Cine Cairo, que não abandonaram seus postos de trabalho sob a supervisão do cafetão gay que não nos deixou usar o banheiro.
Estava quase todo mundo de verdeamarelo, com aquelas cornetas que nos dá um som de boiada, outras estridentes, outras improvisadas.
O imenso telão lá da frente não dava pra todo mundo. Na nossa frente, duas palmeiras e uma teimosa goiabeira que nasceu no vale do Anhangabaú. Uma das palmeiras ficou tentando sair da frente o jogo inteiro, estava até meio torta...mas com uma visão privilegiada da partida.

Primeiro tempo. A gente meio de canto, pensando nas próximas umahoraemeia em pé. Nos esgueirando entre um sem número de pescoços, cabeças, cabelos e bonés. Sempre tem uma fresta.
Vários lances depois (UH!), o gol do time de azul. Quase todos os comentários que ouvi:
“Viu, o Brasil é uma bosta mesmo!”, do aposentado. “Esse gordo não presta pra nada!”, do moço. “Zico viracasaca!”, da minha amiga. “Timinho de frouxos!”, por um grupo de meninas. “Acabou o jogo, perdemos!”, da minha outra amiga. “Eu sabia!”, de um monte de gente.
Alguns lances depois (UH!). Veio o gol do time de amarelo e branco. Explosão inimaginável que me deu saudade do estádio de futebol. O clima de “Vai, Brasil!” estava de volta, com tudo! Quase todos os comentários que ouvi:
“Somos os melhores do mundo!”, do aposentado. “Vai, gordão!”, do moço. “Chupa, Zico!”, da minha amiga. “Esfrega na cara deles!”, das meninas. “É nóis!”, da minha outra amiga. “Eu sabia!”, de um monte de gente.

No intervalo deu uma esvaziada. Fomos dar uma volta e paramos em frente ao Cine Cairo. Apoiamos na grade pra ver. Todo o vale estava cercado, as partes gramadas e os bancos. A equipe de garis do alto de sua autoridade, afinal ia sobrar pra eles limparem tudo mesmo, ocupava um destes camarotes gramados. Junto com dois seguranças, um meio bêbado que não arredava pé do lugar.
Os garis ensaiavam umas pernadas da capoeira quando duas crianças que vendiam balas pularam a grade pra dentro. Plupt! O segurança que não arredava pé olhou e continuou não arredando. O outro veio cutucar, pra tocar as crianças dali. Este aí segura o menino e o ajuda a passar fora da grade, ele resiste com as perninhas, tentando dizer que ele só queria atravessar pro outro lado. O segurança deixou e eles foram pular pra lá, onde havia mais fregueses e de repente uma visão melhor. Nesse tempo passa em nossa frente, pra dentro da mesma grade, um homem de muletas, com a perna quebrada. O outro segurança continuava lá, fixo na tela como um hipnotizado “Vai, Brasil!”

Segundo tempo. Fomos pro meião, já sem medo de pescoços ou cabeças. Somos todos do mesmo time. Já fazíamos amizade com a vizinhança, agora duas enfermeiras, quatro moças, um velhinho tatuado que olhava feio a cada palavrão que falávamos, uma senhorinha minúscula que catava latas. Depois de alguns lances (UH!), outro gol da equipe amarela e branca. Não pulei e só olhei para os lados. O sorriso da senhorinha que também não pulou me entupiu os olhos de lágrimas. Não, eu não vou chorar por futebol. Mas não era pelo futebol que eu quase havia chorado.
Dali pra frente, todos os UH! Mais dois gols dos amarelo e branco, vários abraços, outras lágrimas, outras cervejas. Final da partida!

Na seqüência, o show do Zeca Pagodinho. Antes, busca por um banheiro lá em baixo do viaduto. Ao lado dos banheiros, a equipe de camelôs que não podia entrar. Churrasco, amendoim, pipoca, cerveja, batida de jurupinga na garrafa pet. Ficamos com churrasco e pipoca. No longo caminho de volta, já dava pra ouvir o bêbado Zeca começando o show, com a música que eu imaginei que, como um bom devoto, ele começaria.

“Vou acender velas para São Jorge. A ele eu quero agradecer!”

Até quase o final do show deu pra ver que o velho mau-espírito Anhangá não mora mais ali.
Ou estava mesmo é assistindo o jogo.

20 de junho de 2006

Às vezes...

Noites de luxúria com meu computador...Uma das minhas diversões preferidas, beber uma cerveja e escrever neste blog. Só faço isso às vezes.
Eu esperei meses pra fazer isso. E nem sei porque estou fazendo hoje. Acho que consegui, depois de quase cinco meses de escola, desligar o cérebro.
Brinde a isso, então!
*
Desci no barzinho da esquina (aquele que o dono me estende um LM quando me vê). Cheguei com a garrafinha, que é dele emprestada, e ele me vendeu uma brejinha quase cremosa de gelada. Só pra clientes preferenciais. Também vai ser a única, porque amanhã tem 5ªB.
Este bar tem uma peculiaridade, me vende cigarro fiado. De manhã saio pra escola em transe, correndo, às vezes pego um maço e pago na volta. Eu gosto das relações de interior que se criam, saudades da caderneta da mercearia e da conta na locadora.
*
Tenho saudades, às vezes, de morar no Butantã. Mas acho que eu não conseguiria trabalhar o tanto que eu trabalho hoje, como eu não conseguia naquela época.
Cada dia, uma desculpa: preguiça,vou plantar, pintar vaso, brincar com a cachorra, fumar o dia inteiro, vagar e inventar de mudar o mundo.

Pelo menos agora dá a impressão, bem de vez em quando às vezes, de estar mudando o mundo...

18 de junho de 2006

Em plena campanha "Se é pra ir...


vai Brasil!

(ou volta de uma vez!)

14 de junho de 2006

Mudam-se os tempos...mas não muito


Escrevia na lousa sobre a aventura das navegações. Na 5ªB, claro.
Consegui conversar com eles hoje de novo, e contava sobre os monstros que viviam na imaginação dos navegadores que tinham coragem de se enfiar num barco por meses, temendo ciclopes, dragões e sereias...
_ Tinha loira burra, sora?
Não entendi, continuei falando outra coisa, pedi pra alguém sentar, pedi pras meninas pararem de falar, escrevi mais um pouco na lousa. Escutei o papo dos dois menininhos da frente.
_ Então dizem que ela corta a boca com uma faca, pra você não gritar...
_ E tem que dar três descargas...

Parei, olhei e perguntei. Como se chama a loira?
_ Loira burra, sora!

A menininha do fundão vem correndo...
_ Um dia eu cheguei no banheiro e encontrei uma menina chorando no canto. Ela disse que não entrava no banheiro porque a loira burra tava lá.

Gente! Pessoal! Sabia que faz pelo menos 20 anos que esta história existe? Será que é verdade mesmo?

_ Claro que é, Sora!, responde o David. Eu já vi.