16 de julho de 2005

Medo de quê?

Grupos de crianças vem visitar a folha, normalmente de classe média-alta. Quando entendem como funciona um jornal, piram nos computadores e nas fotos do Harry Potter cadastradas num arquivo digital.

Dias atrás chegaram as crianças de um projeto educacional da favela Zaki Narchi. Tinham menos de sete anos de idade, mas entendiam muito mais de medo do que qualquer pessoa.

O rapaz começou a exposição como todos os dias. Perguntou do Harry Potter, um levantou a mão. Lembrou-se então de perguntar se alguém já tinha visto um computador, um levantou a mão. Explicou que aquilo se chamava mouse, que era rato em inglês. A menininha levantou a mão e perguntou se ele corria quando tentavam matar ele. Começou então algum diálogo.

Enquanto isso, estou lendo o jornal numa mesa bem perto. Os três menininhos do fundão, de mãos no bolso e indiferença de adolescente se aproximam de mim. Um deles aponta para uma foto de pneus em chamas, protesto pela morte da mãe e dois filhos em Diadema por um policial militar. Ele indica com o dedo, bem devagar e diz “Cingapura.”. “Onde você mora?”, pergunto. “Cingapura, da Zaki Narchi” “Teve briga lá esses dias não? Alguém se machucou?” Ele aponta com o mesmo dedinho o olho. “Um menino, levou um tiro aqui.” Fico muda e desconverso, peço pra eles prestarem atenção no rapaz que está explicando

“O que vocês querem ver?” o rapaz pergunta. “Zaki Narchi!”, eles gritam empolgadíssimos. As fotos digitais com esta palavra-chave trazem incêndios, enchentes e a mais recente reintegração de posse violentíssima. “Olha, o Buiú!!”, todo mundo grita junto, encontrando um sentido, reconhecendo lugares e pessoas nas fotografias. “Cadê a foto do menino do tiro?” “Eu joguei pedra na polícia!” “Se quiserem quebrar minha casa, eu arrebento”. Isso tudo foi dito ao mesmo tempo.

“Vamos ver uma coisa mais feliz? E agora, o que vocês querem ver?” se esforça o rapaz.

“O Chucky!”

7 de julho de 2005

Mais uma do Largo de Santa Cecília

Além do Samba da Santa, às sextas-feiras, existem neste universo paralelo do centro de São Paulo duas festas de forró.
No sábado e no domingo rolam bailinhos (é bailinhos) com o melhor do forró. To sabendo tudo quase de cor, porque dá pra ouvir muito melhor de longe, ou seja, de dentro da minha cama.

A música top hits é aquela, que reproduzo a letra, mas o ritmo, que é o melhor, eu não consigo....

“CORAÇÃO
PARA QUÊ SE APAIXONOU
POR ALGUÉM QUE NUNCA TE AMOU
ALGUÉM QUE NUNCA VAI TE AMAR
EU VOU FAZER PROMESSAS PARA NUNCA MAIS AMARALGUÉM QUE SÓ QUIS ME VÊ SOFRER
ALGUÉM QUE SÓ QUIS ME VÊ CHORAR PRECISO SAIR DESSA DESSA DE ME APAIXONAR POR QUEM SÓ QUE ME FAZER SOFRER POR QUEM SÓ QUE ME FAZER CHORAR “

Só pra informar, a quem interessar possa,meu coração vai bem.

6 de julho de 2005

Váááááárias do dia de hoje

Vááááárias coisas pra comentar, outras eu nem comento. Pra facilitar a atualização do querido leitor vou escrever em itens; minha cabeça ta desorganizada, minha vida está corridíssima, mas eu gosto mesmo disso.

1. Depois de 3 anos, 170 páginas, 48 notas de rodapé, 45 livros na bibliografia, 1 viagem, 1 cirurgia, 3 amores, 3 casas, 4.219 crises, 2 semanas de insônia, 9 fitas de vídeo com imagens gravadas, 5 fitas com entrevistas, 7 versões quase finais, 8 cópias encadernadas em espiral, 2 ônibus até a usp, 1 assinatura, EU VOU DEPOSITAR NA SEXTA-FEIRA. Sem mais.

2. Constatei hoje: como pude viver tantos anos sem a voz da Na Ozzetti? Estou obcecadamente ouvindo na amiga rádio uol a música que diz coisas tão bonitas, ( mesmo que não tenha sido ela quem escreveu, quem “diz” é ela)

“De um lado vem você com seu jeitinho

Hábil, hábil, hábil

E pronto!

Me conquista com seu dom”
(...)
“Um método de agir que é tão astuto

Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo

É só se entregar, é não resistir, é capitular”
(...)
“No site o seu poder provoca o ócio, o ócio

Um passo para o vício, o vício

É só navegar, é só te seguir, e então naufragar”

Acho que deu pra entender, então, sem mais.

3. O que não deveria comentar...
trecho da reportagem sobre o São Paulo Fashion Week na Folhasp, por Erika Palomino despejando tudo o que entende do mundo da moda. Me impressiona a capacidade de teorizar sobre a futilidade...

“Dando prosseguimento a seu novo espírito romântico e lúdico, Herchcovitch mostrou praticamente um passeio na floresta, com decoração de acrílico no contra-luz dos janelões da Bienal: unicórnios, cavalos-marinhos, cogumelos, corações e flores”

Até tem mais, mas estou com preguiça.