2 de julho de 2008

De férias há dois dias.



Resolvi tirar um tempo para ler romances, qualquer um, pois demoro normalmente menos de 48 horas pra terminar. Leio em todos os cantos, antes de dormir, meu sono acaba. Acordo e leio tomando café. Este último que li se chamava A Sombra do Vento, uma história maravilhosa sobre livros e amores que se passa em Barcelona, uma cidade alucinação, pelo autor.

Eu gosto muito de livros. Todos os meus estão empilhado na sala. Terei que arrumá-los e ainda bem, revê-los. Com suas dedicatórias e ondes e quems e quandos. Mesmo que eu nunca (ou ainda não) tenha lido, ele tem história por si só.

Tudo isso pra contar o causo que vivi hoje. Andando pelo bairro atravessei a rua para espiar o sebo novo. Achei coisas bem legais e lindas, inclusive os donos. Estava lá na minha procura quando reparei num senhor, um velhinho de terno, óculos e careca, que seria qualquer um dos muitos por aqui se não fosse os livros que ele estava escolhendo. Só raridade, gramáticas antigas, dicionários de sinônimos, biografia rara do Hernan Cortez.

Perguntei, o senhor é historiador? Respondeu, escritor, filósofo, curioso. Pensei, meio arrogante.

Nessa entra na loja uma mulher toda pintada, vestindo vermelho e preto, com uma boina e um viveiro de penas como brinco que ia até o meio do peito. Perguntando pelo livro do Cipriano, aquele capa preta. O moço do sebo, para confirmar, pergunta, o capa preta ou capa de aço? E ela responde, o preta, que tem uma oração a este santo em latim lindíssima.

O curioso é que acabei de achar o livro de rezas da minha avó, capa de aço, não preta. E com outro nome. Não resisti e perguntei, qual é a diferença das capas? Respondeu, a de aço é magia boa, a preta é aquela de por diabinho na garrafa e nome de gente na boca do sapo. É zica, não gosto nem de ter aqui na loja.

A mulher e seu viveiro respondeu que não queria fazer nada a ninguém, que não fazia mal nenhum, que a oração é bonita, que já tivera este livro e dera pra alguém. O velhinho, ainda fuçando na loja, pergunta que oração é essa. A mulher responde, o senhor não deve conhecer. Ele diz, claro, eu também sou.

A mulher foi embora e o velhinho ficou. Na hora de negociar o preço queria pagar uma pechincha por um livro raro, que os donos sabiam ser raro. Ele ficou mais ou menos meia hora argumentando, não querendo sair da loja sem o livro. Enchendo o saco do moço, dos piercings dele, da tatuagem, ou seja, muito chato. Peguei os livros que tinha escolhido, passei pelo velho e pelo moço e o primeiro estava dizendo, da próxima vez que voltar aqui quero ver você sem furos.

Não resisti. Virei pro velho e disse, agora que o senhor ganhou o prêmio insistência do ano, acho que ele merece ficar com os furos, né? E saí pra sacar dinheiro.

Na volta, os donos me olhavam com espanto. Não tinha ninguém no sebo e sim um argentino tocando violão e cantando. Pedi desculpas por ser grosseira com um freguês. Eles disseram, foi um prazer, traga o livro da sua avó pra gente ver.

Fiquei mesmo com vontade de voltar.