16 de dezembro de 2004

Se rio ou se mar

Bem, hoje está uma daquelas noites muito aprazíveis. É quinta-feira e o verão parece ter chegado no dia certo.

Acho mesmo quinta-feira o melhor dia da semana. Tem lógica, até. Você já trabalhou de segunda até hoje...quatro dias...já está meio cansada...ao mesmo tempo em que o corpo, este rebelde incurável (ou drogado conformado não estou certa), já pede por embriaguez, um pega de luxúria e pelo menos meio trago de ilusão, afinal...desponta o final de semana.

Quinta-feira é o dia que dá pra tocar o foda-se, com o perdão da palavra. Se hoje eu for dormir tarde, não faz mal passar o dia de amanhã com sono. Vai ser sexta-feira, e, caralho, como é bom viver no Brasil... e termos este acordo unânime e mais ou menos velado de que às sextas-feiras e segundas-feiras não se trabalha. Em segundo lugar vêm às quartas. Que não se trabalha muito porque é dia de meio de semana. O mais triste, de longe! E em geral as terças-feiras são conformadas.

Mas as quintas..!!!

De verão, chinelos, roupa bem podrona, aquela de cavucar quintal, pairei o dia todo sobre o dia...só comemorando que minhas aulas de inglês acabaram hoje e ...meu coletivo de monstros (alguém sabe esta palavra? Alcatéia dá muito valor a eles, constelação é parnasiano demais) hoje resolveu me dar uma folga e passear...Afinal é quinta-feira!

E, de forma mais ou menos deliberada, hoje optei por estar sozinha. Se eu tivesse dado algumas telefonadas, pode ser que encontrasse alguém aqui pelo centro...acreditem, já tem uma comunidade aqui...Mas não...estou sozinha e com aquela sede que disse numa outra vez.

Desci no buteco da frente de casa...menos de dez passos (Viva o Centro!) e comprei umas brejúsculas. Skol gelada de garrafa, não muito barata, o cara empresta o casco. Aliás, ele me vê de longe e já estende um LM. Também tentei fazer um daqueles, mas o consumo coletivo me destreinou ao ponto de produzir o mesmo tipo de pastel que àqueles dos velhos idos de 1996.

E sentei primeiro na frente do telefone...merda de linha econômica (eu odeio a Telefônica parte XXII, § 4). Tava com vontade de conversar com minhas amigas...mas pra fazer interurbano você compra um cartão nas lotéricas, carrega seu telefone...e a voz te avisa...você tem 3 min e 42 seg de conversação...se a gente acha que é roubada pela Telefônica normalmente, imagina neste esquema. Bom, já comprei dois cartões e gastei tudo. Agora não tenho, e resolvi escrever.

To quase escrevendo para a Bia, a Cris, a Ana, o James e o Degan..os quais eu leio todos os dias religiosamente...e sofro com as ausências porque, a não ser o Degan...vocês são todos uns relapsos com o relato de seus cotidianos! Humpf! Vamos escrever minha gente!

Então consegui comer meu pastel, com direito a ingestão de partículas, já acabei a primeira garrafa de cerveja...e fumei alguns cigarros. Ao contrário da Bridget Jones, eu nunca os conto.

Aliás, ontem a Ana Emi, a Aline e eu nos encontramos e fomos ver o filme da Bridget Jones. Todas decididas! Tomara que vocês tenham visto, ou pretendam ver de qualquer jeito, pois achei o filme uma bosta, e não quero influenciá-loslas com minha opinião. Tenho muito ódio, não acho graça, de ter algumas coincidências com ela, algumas cruciais como ter a incrível capacidade de estragar tudo. Por isso não sei se rio ou mar com as histórias dela. Mas mesmo assim, o primeiro filme é melhor!

*

Me esqueci de dizer. Estou escutando um cd de Salsa que comprei por 9,90. Se chama Los Latin Brothers, sente o clima! Tem tantas horas que me faz lembrar o Calcinha Preta que até me emociona. É o mesmo balanço e a mesma quentura.

Reli tudo o que escrevi e to achando uma viagem! Espero que não fique chato de ler.

Preciso contar que estou com as unhas compridas e cor de ameixa, que meu cabelo ta comprido e esquisito, que faz três dias que como um saco de confeti assistindo Plantão Médico na TV e que eu estou com medo e vontade de acabar conversando com minha avó quando eu tomar anestesia geral de novo...daqui a menos de um mês.

Uma certa dose de morbidez me fez assistir um documentário outro dia, e foi bem punk. A mídia ocidental dedica-se bastante a mostras as patologias socioculturais da China, como àquela de abandonar bebês menina. Desta vez o documentário dedicou-se à questão do preconceito que sofrem as pessoas baixinhas. A ponto de não conseguirem emprego nem namorado! (Será que não tem isso por aqui?)...Para reverter a situação as pessoas se submetiam a uma cirurgia de encompridamento da perna. Pra saber, perna é o nome dado àquela parte da perna que não é coxa, só o que está abaixo do joelho. Então aquelas pessoas passam por um puta sofrimento, com aqueles ferros (aqueles) na perna, girando uma manivela que impede a consolidação do osso, esgarçando o osso serrado (quebrado) artificialmente em uma cirurgia, pra ficar meio saracura, desproporcionalmente mais alto sete centímetros.

OK, OK, é mórbido eu ficar vendo uma cirurgia ortopédica ao vivo e ao sangue...eu só vi porque estava sozinha...ninguém me deixaria ver. Merda de discovery chanel! Ao mesmo tempo estou procurando entender mais uma vez que meu sofrimento não é único...tem pra todo mundo. E me sentir melhor com isso...por pelo menos fazer parte da raça humana.

Desculpe o desabafo! Mudei de cd e comecei a ouvir Narcotango, um grupo de argentino de tango-eletrônico, levo na praia procês verem. É demais!
E o cd sem querer levou meu clima de verão e chinelas diretamente para um futuro próximo.

E assim seria se eu estivesse sentada nos banquinhos desconfortáveis, mas viciantes da cozinha amarela, na mesa redonda. Tudo esfumaçado e amigo.

E podia até ser que fosse quinta-feira!