23 de janeiro de 2005

A gente somos...

É isso, tô me sentindo tão inútil que até sem ter nada o que escrever à princípio, marco presença neste blog nosso de cada dia. E desculpe-me pela generalização ao incluí-los no título, foi só pra garantir o trocadilho com a velha música.

Falando em música, boas influências do ultimamente me fizeram empolgar novamente com o violão.

Fui buscá-lo (mentira, me trouxeram) detrás da porta...abandonado. Tirei o pobre DiGiorgio da capinha e descobri que ele estava com a corda Mi (“fiz uma aliança pra ela, prova de carinho”) esgarçada, quase arrebentando. Precisava tentar salva-la porque no sábado à noite eu nunca ia achar uma corda pra comprar. Depois de toda operação de arrumar a corda, próximo passo, afinar.

Por coincidência, encontrei um diapasão na gaveta do criado-mudo. Que delícia o “lá” redondinho que obviamente eu não consegui transpor pra afinar o violão. Ficou razoável a afinação!

O próximo passo foi descobrir o quê tocar. Não é mentira que eu esqueci tudo, ou quase, que eu sabia de cor. Precisava de mais um favorzinho do meu irmão, dos 250 diários. Bru, acha a cestinha com as revistinhas pra mim?

A busca na bagunça organizada do porão encontra a mesma cesta de anos, um pouco desfalcada, empoeirada...quase uma caixinha de lembranças.

A primeira revistinha que me caiu na mão: Caetano. Quase rezei pra ela me trazer uma surpresa tão boa que me empolgasse a tirar a música. Lembrei do tio Milho sacudindo os braços de forma lânguida e me empolguei.

Curioso foi que eu já vi esta revisitinha 7.000 vezes, e logo na primeira música me encontrei. São assim as caixinhas de lembranças, cada vez que você olha, encontra algo diferente, que faz sentido no tempo histórico presente, e blá blá blá. É quase aquilo que eu disse pra Bia: a mesma coisa, com a pessoa diferente.

A música foi aquela que um menino noinha do passado me cantou, a Bia me mostrou o CD, o tio Gil me emprestou e agora eu aprendi a tocar. A tocar marromeno, mas pelo menos já tirei.

A música é aquela que diz da presença morena que entra pelos sete buracos da cabeça, pelos olhos bocas narinas e orelhas, que paralisa o momento em que tudo começa e que desintegra e atualiza a presença, que envolve tronco, braços e pernas e que é branca verde vermelha e amarela e negra negra, que transborda pelas portas e janelas, silencia automóveis e motocicletas, que derruba cercas, que se come e se reza, que coagula a noite sangrenta, que é o mais bonito da natureza e que mantém teso o arco da promessa. Morena.
Enfim, a tua presença!

(Consegui tirar sem muita dificuldade. O Yuri, um amigo e professor de música da comunidade Anaconda/Coral, me dizia que dedo tem memória, é só deixar ele agir.)

Empolgada, avancei na próxima revista. Na da Velha Tia Lee e encontrei “Caso Sério”...uma música pra lá de boa...pra mim uma das melhores.

Pra não ficar cansativo, resumo a historinha. Nós dois, cada um na sua, perdidos na cidade, empapuçados no verão, a meia luz, a sós, a toa. Refrão de bolero, dose dupla, Cuba libre, sanduíche de gente...

Bem, repensando meu sentimento de inutilidade, terminei o dia com cinco calos novos no dedo, além daquele que já se formou na mão, pelo uso da amiga muleta.

Momento memória:
Escrevo escutando o CD da Amelinha Polaina e lembrei da Denise dançando. Tão sublime e tão sozinha...