19 de outubro de 2005

A incrível batalha dos “Cidadãos de Bem” contra “Os dedos alados”

Estamos a uma semana do referendo e algumas coisas estão me deixando nervosa.
As duas posições envolvem certo tipo de cegueira danosa e daninha, os debates estão tão esquizofrênicos quanto a proposta de revisão de um direito constitucional de maneira apressada e bem deslocada de outras amplas realidades que envolvem a Segurança Pública.
Não sou capaz de retomar a trajetória desta discussão de desarmar a população. Retomo então, minha trajetória de envolvimento, sem mesmo gostar, com estes casos.
Acho que foi na década de 90 que alguns pesquisadores de centro-esquerda começaram a pensar a Segurança Pública fora daquelas idéias de repressão violenta, prisão, pena de morte, punição dura, justiça implacável, característica daquela parcela da população sentada do outro lado, com os quais não partilho nada.

Acho também que dentro dessa imensa pauta, que consideraria a justiça social e igualdade econômica como pressupostos, estariam também outras propostas como unificação das polícias, polícia comunitária, mediação de conflitos, punição da violência policial, ouvidoria da polícia, etc. A pergunta que não se calou é aonde foram parar estes outros tópicos da pauta, e porque o desarmamento emplacou a ponto de virar referendo.

Antes de tudo, tenho que falar que vou votar sim no domingo que vem, porque eu tenho medo de arma, desde que meu pai me fez segurar uma pra me defender, caso acontecesse algo quando ele estivesse fora. Pra ter uma idéia, nesse dia a bala escorregou e caiu no meu pé. Não gosto e não quero: nem pra mim e nem contra mim. Vejam então que voto também envolvida na minha cegueira, que alguns julgariam igualmente subjetiva. Outra razão, também muito forte, diz daquela postura atenta em votar contra quem está sentado do outro lado do plenário, embaixo do outdoor da CBC, usando canetas da taurus, os velhos senhores da guerra (sim, eu li o menino do dedo verde)

Cidadãos do mal
Olhando então para o discurso do NÃO. Quem diria que veríamos a galera do lado de lá falando em direito. Mais um conceito nosso roubado. Já roubaram minha liberdade e transformaram em livre-mercado, já transformaram minha justiça e pioraram em vingança, e já zoaram com minha igualdade chamando de oportunidade, a fraternidade, então: virou lei de incentivo fiscal. Quem luta pelo direito somos nós: Educação, Comida, Saúde, Terra, Informação. É assustador que o discurso do “direito” possa ser fortalecido por eles lá, comandados por assassinos como o Fleury. É mais assustador que estes mesmos aí seriam os mais ferrenhos contra o aborto, outro direito individual, mas dessa parcela de sub-gentes que somos nós, as reprodutoras. Outro ponto que me incomoda muito é que todo este discurso está embasado no “cidadão de bem contra rapa”. Pessoalmente acho ridícula esta dicotomia, mas se há cidadãos de bem, não são eles.

Dos dedos alados
As inúmeras conversas de bar, sempre as do bar, me trouxeram também outros olhares para o SIM. Não há como negar que o que está sendo cassado é um direito assegurado na constituição. E isso, realmente é difícil de aceitar. Levando que conta que um dos meus passatempos preferidos é pensar as projeções para o futuro, o barco realmente pode virar, se não já virou. Eu creio que a decepção com o PT não vai passar incólume, e podemos pirar num futuro em que se defender do estado vai fazer sentido. Ou mesmo defender esse estado, que é ruim mais é nosso, daquela galera sentada lá em cima do outro trópico.
E mesmo que pesquisas (que são de muitas formas “carteiradas” semelhantes ao uso da palavra “especialistas” pela grande imprensa) mostrem o grande número de mortes por arma de fogo, que muitas armas roubadas dos “cidadãos do bem” vão para o crime, etc., fica difícil acreditar que o tráfico de armas, que só perde pro de drogas e o de gente no mundo, não deve aumentar.

Outra situação que está na pauta deste discurso: os crimes de periferia, as brigas, as paixões mal resolvidas. Que se pensarmos bem devem continuar a ocorrer com ou sem as armas, ou com instrumentos insólitos que alimentem as páginas policiais dos jornais. E o Estatuto do Desarmamento não prevê a total proibição da venda de armas e munição. Se você provar qualquer um daqueles itens previstos, ou simplesmente que corre risco de vida, você vai comprar uma. Pensar a proibição como uma reforma constitucional é assustador, mais ainda se percebermos que bem pouco pode mudar.

O que eu perdi nesta trajetória subjetiva (e coletiva também) de compreensão do processo histórico e político envolvido neste referendo? Ainda não deu pra perceber.

Mas eu vou votar domingo contra o maldito afanásiozinho que estou descobrindo morar dentro da maioria.