23 de setembro de 2006

Mil chinelos para Lucas


No buteco da Oscar Freire, lotado com os operários que trabalham na reforma das calçadas, o atendente tenta me cobrar 1,90 por um refrigerante. Não, obrigada. Aproveito as mesinhas de plástico da frente do bar para corrigir as redações das 5ºB.
O exercício era fazer uma redação sobre uma pessoa que não sabia ler e foi viajar pelo Brasil. De tudo saiu sobre quem não freqüentava a escola porque era chato, porque os pais na achavam importante e sobre quem era enganado, perdia o ônibus ou a rua certa onde deveria descer.
Faltando meia hora para a última aula do dia resolvi caminhar lentamente pela Oscar Freire para observar cheiros, vitrines, pessoas e preços. Em frente à livraria da Haddock Lobo conheci o Lucas.
Ele é uma criança bem pequena, estava descalça e carregava uma caixa de engraxate feita sob medida.
Ele disse:
Me dá um real pra eu comprar um chinelo? No Pão de Açúcar. Lucas. Tô na 2ª série. Em Guaianazes. Minha mãe ta vendendo bala no farol. Igual a do sítio? É, se você fosse malvada estaria lá no sítio. Não vai dar tempo não, e você pode até perder seu emprego.

Eu disse:
Peraí. Onde você vai comprar? Como você se chama? Está na escola? Onde fica a escola? Cadê sua mãe? Cuca. Mas não sou malvada. Eu to atrasada, senão eu ia lá com você.

Um pouquinho pra frente parei em frente a uma loja da Cartier. Vi jóias que valiam mais de 1000 vezes o preço do chinelo que ele queria. Fiquei me perguntando quanto valeria os pés descalços do Lucas para o pescoço que usaria aquela jóia.

Olhei um pouco pra trás e o Lucas brincava com as moedas que já havia conseguido. Como se fossem bolinhas de gude.

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