11 de novembro de 2004

Sobre as avós

Escrevi esta historinha bem antes de minha avó morrer, num surto de amor...

As mãos de minha avó

Como toda mão de quase todas as avós, as da minha era cheia de pintinhas. Daquelas manchas da velhice que não falham e, mesmo se na palma lhes faltarem os calos da lida, no dorso não faltaram aqueles do passar dos anos. O que havia de diferente nas mãos de minha avó era imperceptível. Para mim mesma, sua companhia constante durante anos, eram mais indutivos do que visíveis. Eram milhares de furos, que se abriam e cicatrizavam em uma mesma rotina há 68 anos de prática de costureira. Costureira não, modista! – ela costuma dizer. As agulhas e alfinetes nunca a perdoaram, assim como a vida.
Com suas mãos, que nunca se habituaram a ficar paradas, minha avó construía alguns sonhos. Em seus oito anos a mãe duvidou dela, que ela não poderia costurar um vestido. E comprou-lhe uma chita feia pra não desperdiçar dinheiro. E o vestido ficou pronto, assim como o seu caminho. Ajudava as tias no cozer cotidiano de calcinhas e lençóis, e tudo mais que antigamente não se comprava, e no grande armário da sala de costura, mergulhava seus sonhos em rendas e botões.
Quando moça, por ousadia ou mesmo necessidade, foi trabalhar fora. Na sessão de costura de uma grande loja de departamentos passou de arrematadeira para a sessão do corte num pulo. Corte que ela tanto se orgulhava de ser muito estudado e muito seu. E durante este tempo e depois, o que ela gostava mesmo era de fazer os vestidos de noiva, de festa, de debutantes. Com lindos tecidos e cores e pedras e apliques. De noite, em sua velha máquina de costurar, minha avó transformava aquilo tudo nos sonhos de alguém.
Seu nome é Theresa, mas ao contrário do que dizem por aí, ela nunca se cansou da guerra, era incansável. E invencível. Dentro de seu corpo, onde realmente eu nunca pude ver, estavam outras cicatrizes. Não eram furos de agulha, mas talvez grandes covas negras, com grandes dores enterradas que ela conta rindo. Aliás, minha avó ri chorando e chora sorrindo.
Sua mãe muito cedo, seu pai queridíssimo, sua única irmã, seu marido, seu filho predileto, sua filha (por algum tempo), quase toda sua família está morta. E se não morreram, já foram enterrados. E esses furos também foram abertos e cicatrizados na mesma rotina.
Descobri outro dia que ela costura com pontos pequenos e delicados estas grandes covas que moram no seu peito. Cada ponto dado em uma seda ou outro tecido fino vale outro em suas feridas. Ela vai cerzindo com linha de bordar, bem fininha. Assim, em todos estes anos, os furos de suas agulhas foram a sua salvação. Só uma vez a vi não querendo costurar, quando seus netos estavam quase morrendo e ela achou que não ia agüentar mais. Nós não morremos e ela segue trabalhando.
No fundo, eu desconfio que com as linhas mais bonitas num bordado de miçangas ou rendas ou pedrinhas de cristal, minha avó constrói escondida sua própria teresa para poder um dia fugir para o céu.